terça-feira, 10 de maio de 2011

A Paciência

E eis o mistério da fé: a paciência. Ou a falta dela, a ausência total de estômago para esperas estudiosas e planilhas da lógica. O compasso que determina a dança decai com os impulsos não cumpridos e o comprido tempo oscila entre a vontade e a desistência.

Não saber esperar é um grande defeito e uma preciosa virtude que te leva a lugares sensacionais e não-planejáveis e te priva da construção elaborada de um lugar comum. E cada lado tem as suas certezas, e em cada espera ou falta dela cresce uma vida diferente para se narrar.

A razão de ser irracional é colher a beleza que só a surpresa é capaz de proporcionar. O medo da amargura, entretanto, transforma o leve sussurro das vontades não premeditadas em um poço de hipóteses do que poderia ter sido.

E nas trilhas que serpenteiam as nossas razões tudo é ganho e tudo é perda, ficam-se os cheiros e vão se as mãos, e as palavras chegam mesmo de boca calada, numa onda magnética que não chega a eletrizar meu ser. E fica-se a ardente espera para que a paciência não acabe.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Medo do Escuro

Sempre tive medo, muito medo, medo de tudo. Talvez por isso demorei tanto tempo para conseguir dormir sozinha. Talvez por isso levei anos para poder dormir no escuro.


Foi nesse belo dia que é o aniversário que resolvi explorar o aconchego do meu quarto, tão querido e pessoal, o qual eu nunca precisei partilhar em irmandade e no qual eu não conseguia antes pregar o olho. Só depois de muito tempo o reflexo da televisão se apagou para desaparecer para sempre dos meus apegos materiais e me impor a necessidade do breu noturno total.


E os anos se passaram e cada vez alimentei mais os meus impulsos solitários, talvez mesquinhos e egoístas, de passar tanto tempo só. Meus braços cresceram, minhas pernas alongaram e nenhuma sombra os meus ouvidos poderia subjugar. E aí veio a necessidade de me provar por mim mesma fora daquelas protegidas paredes.


Provavelmente nunca senti a emoção da solidão que as pessoas tanto se admiravam de minhas andanças; aquilo, no final das contas, era a mesma coisa do que eu e mais eu juntas dentro de um quarto, fosse num trem, num enxaimel, num estúdio. Eu era assim.


Mas verbetes se aprendem e chegou o dia que foi a vez de aprender o que é partilha, uma estranha companhia, que nunca pensei ser capaz de entender. Eu, que vagava pelo mundo, de repente me abri para um novo dentro de mim onde ter confiança no incerto era preciso. E assim o quarto do meu coração foi se povoando e eu fui ficando cada vez menos só.


Esse mundo comunal foi girando até cair de ponta cabeça e as batidas do meu coração se alinharem com o barulho da microfonia. E eu, tão orgulhosa da minha coragem e do meu desapego, me vi então no quarto, só, com medo de apagar a luz.

domingo, 17 de abril de 2011

Faz-se

As melhores histórias não são as nossas para contar e tudo começou numa lua como a de hoje.

Era uma noite cheia e os destinos eram vazios mas de uma forma inexplicável sentara-se alí e, ouvir, era inevitável. E foram papos de aço e fumaças que não se vêem e filmes para serem vistos e músicas para serem cantadas e contadas e um abrupto fim.

Um contingente sem gente da semana passada, um teclado de miados e uma companhia inevitável, uma escolha arriscada dentro das possibilidades que te cercam. Do outro lado a razão pulsava e sabia que não era nem de longe o ideal caminho a ser seguido, mas pulsava de felicidade por, mesmo assim, ter sido, e regozijava-se com o vislumbre daquilo que nem mesmo, no momento, aconteceu.

E desceu os degraus da praça e viu no asfalto nascer o sol de um novo dia e, de novo, o outro lado, seguindo o raciocínio lógico, jurou que aquele impulso era algo a não mais ser repetido; o que exatamente não fez na outra fase da lua.

E hoje, na virada de um ciclo, as coisas se repetem em pensamento e o vislumbre a tudo se remonta nas possibilidades daquela primeira luz, àquelas primeiras promessas de um plano. As melhores vidas não são as nossas para se querer, mas na próxima fase essa será a lua para chamar de minha.

sábado, 16 de abril de 2011

Eu digo

De tanto sonhar futuros que jamais realidade tornar-se-iam demorou a acreditar que, daquela vez, de fato aquilo estava fadado a acontecer. Imaginou os mais sensíveis detalhes, levou inclusive em consideração o gosto e a vontade de parentes e amigos. Era a festa.

E, enquanto planejava, escutou a mesma música repetidamente por centenas de vezes e, em todas elas, não pôde ignorar uma brisa sequer da madrugada de onde todas as pessoas solitárias vêm. E pela primeira vez foi totalmente natural. A janela estava embassada, mas ainda assim eram fortes as luzes.

De repente aquela telepatia tornou-se diária e, quase compassadamente, faziam-se os ruídos das palavras que iam e vinham nos risos e nos arrepios da falta de tempo que o cotidiano exerce sobre nossos ardores. E quase como um vício aquilo tornou-se absolutamente necessário, como se já não fosse normal nada daquilo ter. Até que o silêncio veio.

E o adeus só anunciava a saudação.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

A grama

Da beira da montanha sentia o ar que lhe faltava. Era mais uma daquelas bifurcações de estrada sem nenhum sorriso de gato para servir de guia. Lembrou das frases de alegria e dos momentos de agonia, mas nada era certo o bastante para chamar de sua. Decisão.


Momentos antes tinha beirado a loucura e pulado para a margem dos que enterram dores e amores. Mas ninguém chora a tristeza contida e ninguém ri a vida não sofrida, e trocou tudo o que tinha por aquele desespero.


As folhas já caíam de seus galhos como lágrimas que lutam em descer pelo rosto e o soluço dos ventos a jogaram onde seus pés doíam. E mesmo assim dançou, rodou por horas e mais horas até seu cabelo e o orvalho se unirem em um só.


Um sol.


Subiu por onde não deveria ir e pegou-se imaginando um futuro no qual era a boba, boba com o sorriso de orelha à orelha. E depois de todos aqueles dias que passaram, já lá de cima, do topo de tudo, pôde ver que a grama era, realmente, mais verde.

quinta-feira, 24 de março de 2011

O Quarto Sem Janela

Dobras de luz lá não chegam. Assim então é quase impossível dizer o que é noite e o que é dia, sem um começo. As paredes que calam os sussurros vizinhos quase choram no calor da tristeza do verão que não se espalha para dias sem fim.

A pétala última que cai não perfuma a lágrima que se recolhe e nem dá vida para uma nova flor. E lá tudo murcha e os papéis rasgados borram cântigos de amor. Azedo verde da maçã.

E são tantos atalhos para uma beleza sem igual... É tanto riso, tanta esperança, e uma enciclopédia da mais rica natureza que germina a felicidade da alma que é desprezada por nem um espelho lá haver.

Mas o escuro também chega, assim como o seco frio dos ossos que rangem tanta dor de um chorar. Mas a partida também segue e só a rua dos sem caminho consegue nisso ter plena ternura.

E assim vive, no quarto sem janela.
Até que o ar acabe.

terça-feira, 22 de março de 2011

Teus Olhos

Foi quando o tempo correu e ninguém percebeu que os acentos mudaram todos de lugar. E aí que nada encontrou o seu certo, e na angústia do desencaixe desmoronou num vale de pressões e impressões descabidas.

A luz da lua polvilhou de água a dúvida dos teus olhos.

O vento, o tempo, o nenhum lugar; silêncio, ira, manias, tremor. As luvas caem e a razão conhece toda a incapacidade do seu ser. E o ponteiro corre no caminho das ruas que suspiram pelos que dormem, e as tumbas estão lacradas.

Palavra alguma jamais um dia irá dizer o começo, meio e fim que num segundo escrevi e apaguei. E pela janela olhei, e chorei, e lembrei memórias por vir.

E o rosa das águas sujas salgam a beleza da melodia que se perde pelo ar. E os cílios molhados se fecham para uma aurora de paralisia, as curvas de uma costa.

Dos teus olhos, a certeza de uma lua sem luz.