quinta-feira, 24 de março de 2011

O Quarto Sem Janela

Dobras de luz lá não chegam. Assim então é quase impossível dizer o que é noite e o que é dia, sem um começo. As paredes que calam os sussurros vizinhos quase choram no calor da tristeza do verão que não se espalha para dias sem fim.

A pétala última que cai não perfuma a lágrima que se recolhe e nem dá vida para uma nova flor. E lá tudo murcha e os papéis rasgados borram cântigos de amor. Azedo verde da maçã.

E são tantos atalhos para uma beleza sem igual... É tanto riso, tanta esperança, e uma enciclopédia da mais rica natureza que germina a felicidade da alma que é desprezada por nem um espelho lá haver.

Mas o escuro também chega, assim como o seco frio dos ossos que rangem tanta dor de um chorar. Mas a partida também segue e só a rua dos sem caminho consegue nisso ter plena ternura.

E assim vive, no quarto sem janela.
Até que o ar acabe.

2 comentários:

Tiago Júlio disse...

Achei o blog meio sem querer.
Gostei do que li.

Me agradou, especialmente, o texto logo mais abaixo: "E foi um sono inquieto, sem satisfação, com a lucidez inconveniente de quem não sabe dormir a noite".
De quem não sabe dormir à noite e tem dificuldade de se manter acordado quando amanhece por ter que suportar o "dia pálido, sem cor e sem graça, sem risos nem prantos, só o silêncio, sem vento, ao vento".
É bonito porque tem uma tristeza consciente, conformada.

(sei que é pouco, mas acho que dar um parecer bobo é o mínimo que eu preciso fazer pra retribuir as palavras todas)

Gabriella Florenzano disse...

Oi, Tiago. Nossa, primeiro lugar, muito obrigada por seu "parecer". Às vezes eu encaro esse blog como um desabafo anônimo, mas nada mais gratificante do que tocar, mesmo de uma forma "boba", alguém. :)
Note que o "dormir a noite" é propositalmente sem crase, numa tentativa sutil de expressar todas as "belezas" que a noite guarda...
Muito obrigada pela visita e volte sempre!